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Tema 40 de 43

Federalismo Fiscal e Capacidade Financeira dos Municípios

A gestão fiscal de Santa Catarina é 2,4 vezes melhor que a de Sergipe — e o mapa da capacidade financeira municipal reproduz quase exatamente o mapa da renda.

O Brasil tem 5.570 municípios com competências constitucionais idênticas — saúde básica, educação infantil e fundamental, saneamento, transporte urbano — e capacidades fiscais radicalmente distintas. O Índice Firjan de Gestão Fiscal mede, município a município, a autonomia de receita, o peso da folha, a liquidez e o nível de investimento; o CAPAG do Tesouro classifica a capacidade de pagamento de estados e municípios; e os tribunais de contas estaduais fiscalizam o que cada um faz com esse dinheiro. Cruzados, mostram um federalismo em que a atribuição de responsabilidade é uniforme e a condição de cumpri-la não é.

A gestão fiscal melhorou em todo o país — inclusive na pandemia

O índice médio nacional de gestão fiscal subiu de 0,546 em 2020 para 0,588 em 2021 e 0,625 em 2022, cobrindo 5.568 municípios. A trajetória contraria a intuição: o período inclui a pandemia, quando se esperaria deterioração fiscal generalizada por queda de arrecadação e explosão de despesa em saúde. A explicação provável está nas transferências extraordinárias da União durante a emergência sanitária, que reforçaram caixa municipal, somadas à recomposição de arrecadação de 2021-2022. O dado sugere que a fragilidade fiscal municipal é, em boa medida, uma função do repasse federal — melhora quando ele cresce e se deteriora quando ele recua.

Índice Firjan de Gestão Fiscal — média nacional
AnoÍndice médioMunicípios avaliados
20200,5465.568
20210,5885.568
20220,6255.568

A gestão fiscal municipal melhorou durante e depois da pandemia — sinal de que ela depende menos da administração local que do fluxo de transferências federais.

Santa Catarina 0,853; Sergipe 0,359

A média estadual do índice varia de 0,853 em Santa Catarina a 0,359 em Sergipe — uma diferença de 2,4 vezes. O ranking é quase uma reprodução do mapa da renda brasileira: Sul e Centro-Oeste ocupam o topo (SC, MT, SP, ES, PR, RS), enquanto os oito últimos colocados são todos do Norte e Nordeste (SE, MA, PE, AC, PB, PA, RN, BA). A exceção mais visível é Mato Grosso, segundo colocado, cuja arrecadação foi impulsionada pela expansão do agronegócio.

Gestão fiscal municipal por UF — extremos (Firjan, 2022)
PosiçãoUFÍndice médioMunicípios
Santa Catarina0,853295
Mato Grosso0,810141
São Paulo0,746645
Espírito Santo0,74478
23ºAcre0,41222
24ºPernambuco0,410184
25ºMaranhão0,379217
26ºSergipe0,35975

Os oito estados com pior gestão fiscal municipal do país estão todos no Norte e Nordeste — a capacidade de gerir dinheiro público acompanha a de arrecadá-lo.

O paradoxo do município pequeno: mesma obrigação, arrecadação mínima

A distribuição de municípios por estado revela o outro lado do problema. Minas Gerais tem 853 municípios e São Paulo 645, mas Roraima tem 15 e Amapá 16. Em estados com centenas de municípios pequenos, cada um precisa manter secretaria de saúde, de educação, de obras e estrutura de controle interno — replicando custo fixo administrativo sobre bases arrecadatórias mínimas. É o mesmo problema de escala visto no Judiciário, mas aqui multiplicado por 5.570 unidades com autonomia constitucional plena e nenhuma obrigação de cooperar.

Número de municípios por UF e índice de gestão fiscal médio
UFMunicípiosÍndice médio
Minas Gerais8530,700
São Paulo6450,746
Rio Grande do Sul4970,730
Bahia4170,451
Paraná3990,735
Amapá160,659
Roraima150,544

Cada um dos 5.570 municípios brasileiros mantém a mesma estrutura administrativa mínima, independentemente de arrecadar milhões ou quase nada.

Cruzamentos poderosos

Hipóteses explicativas

A correlação quase perfeita entre gestão fiscal municipal e renda regional sugere que o índice mede menos a competência administrativa local e mais a base econômica disponível: onde há atividade econômica, há ISS, IPTU e cota-parte de ICMS; onde não há, o município depende quase integralmente do FPM e tem pouca margem de manobra. A melhora durante a pandemia reforça essa leitura, já que veio de transferência extraordinária e não de reforma administrativa. Por fim, a proliferação de municípios pequenos — muitos criados nas décadas de 1980 e 1990 por emancipação — produziu um federalismo em que o custo fixo de existir como ente federado consome parcela desproporcional da receita disponível.

Implicações para políticas públicas

Consórcios intermunicipais para serviços de escala — coleta de resíduos, saúde de média complexidade, compras públicas — reduziriam o custo fixo replicado sem exigir mudança constitucional. Condicionar parte das transferências voluntárias a indicadores de gestão fiscal criaria incentivo à eficiência onde hoje existe apenas incentivo à captação política de recursos. E dado que a fragilidade fiscal acompanha a base econômica, políticas de desenvolvimento regional têm efeito fiscal direto: ampliar atividade econômica local é a única via estrutural para reduzir dependência de repasse.