← voltar ao índice

Tema 41 de 43

Nutrição, Preço de Medicamentos e Acesso à Saúde

O remédio que exige receita custa três vezes mais que o de venda livre — e a tarja vermelha sob restrição, quase quatro.

A CMED, câmara que regula preços de medicamentos no Brasil, publica o teto de preço de cada apresentação comercializada no país: 51.140 registros com substância, laboratório, classe terapêutica e preço máximo ao consumidor em cada faixa de ICMS. É um dos poucos casos em que o Estado brasileiro fixa preço de um bem de consumo privado, e por isso mesmo um retrato incomum de como regulação, obrigatoriedade de prescrição e estrutura de mercado se combinam para determinar quanto custa ficar saudável. Cruzada com os dados de vigilância nutricional do SISVAN e com o programa Farmácia Popular, a base permite ler o acesso à saúde pelo lado do preço, não apenas pelo da oferta de serviço.

Quanto mais restrito o remédio, mais caro ele é

Classificando os 51.140 registros de preço pela tarja — o sistema brasileiro que indica o grau de controle sobre a venda —, o gradiente é nítido e monotônico. Medicamentos sem tarja, de venda livre, têm preço máximo mediano de R$ 36,35. Os de tarja vermelha, que exigem receita, custam R$ 103,76: 2,9 vezes mais. Os de tarja vermelha sob restrição especial chegam a R$ 143,24, quase quatro vezes o valor do remédio de balcão. A tarja preta, reservada a psicotrópicos e entorpecentes de controle mais rígido, aparece em R$ 81,88, abaixo da tarja vermelha comum — sinal de que o preço não é função apenas do controle, mas também da idade da molécula e da existência de genérico.

Preço máximo ao consumidor por tarja, mediana (CMED/ANVISA)
TarjaRegistrosPreço medianoRazão vs. sem tarja
Sem tarja (venda livre)3.644R$ 36,351,0x
Tarja preta1.426R$ 81,882,3x
Tarja vermelha26.296R$ 103,762,9x
Tarja vermelha sob restrição10.450R$ 143,243,9x

Precisar de receita médica quase triplica o preço mediano do medicamento — e a restrição especial quase o quadruplica.

Metade do mercado regulado é tarja vermelha comum

A distribuição dos registros mostra onde está o volume: 26.296 apresentações de tarja vermelha representam 51,4% de tudo que a CMED regula, contra apenas 3.644 (7,1%) de venda livre. O mercado farmacêutico brasileiro formal é, portanto, majoritariamente um mercado de prescrição — o que significa que o acesso depende não só de renda, mas de consulta médica prévia, e portanto da capacidade do SUS ou do plano de saúde de agendar atendimento. O preço é a segunda barreira; a primeira é a receita.

Composição do mercado regulado por tarja
TarjaRegistros% do total
Tarja vermelha26.29651,4%
Tarja vermelha sob restrição10.45020,4%
Sem classificação9.32418,2%
Sem tarja3.6447,1%
Tarja preta1.4262,8%

Sete em cada dez apresentações reguladas exigem receita — no Brasil, o acesso ao remédio passa antes pelo acesso ao médico.

A tarja preta é mais barata que a vermelha — e isso diz algo sobre patente

O achado contraintuitivo do cruzamento é que a tarja preta, o nível mais rígido de controle, tem preço mediano (R$ 81,88) inferior ao da tarja vermelha comum (R$ 103,76). Controle sanitário mais severo não se traduz em preço maior porque as duas variáveis medem coisas diferentes: a tarja mede risco de abuso e dependência, enquanto o preço reflete tempo de patente, custo de desenvolvimento e concorrência de genéricos. Boa parte dos psicotrópicos de tarja preta são moléculas antigas, com patente vencida e múltiplos genéricos disponíveis; já a tarja vermelha concentra lançamentos recentes ainda sob exclusividade.

Preço mediano e nível de controle sanitário
Nível de controleTarjaPreço mediano
Máximo (psicotrópicos)PretaR$ 81,88
Alto (restrição especial)Vermelha restritaR$ 143,24
Médio (prescrição)VermelhaR$ 103,76
NenhumSem tarjaR$ 36,35

O medicamento mais controlado do Brasil custa menos que o de prescrição comum — o preço segue a patente, não o risco sanitário.

Cruzamentos poderosos

Hipóteses explicativas

O gradiente de preço por tarja provavelmente não mede o custo de produzir o medicamento, mas a estrutura de concorrência de cada segmento: produtos de venda livre competem em gôndola de supermercado e farmácia, com demanda elástica e marca substituível, enquanto os de prescrição competem pela caneta do médico, com demanda inelástica e substituição limitada pelo receituário. Isso explica por que a tarja preta, dominada por moléculas antigas e genéricas, escapa do padrão. O resultado prático é que o desenho regulatório brasileiro — que amarra acesso à prescrição — cria simultaneamente uma proteção sanitária real e uma barreira econômica cumulativa: consulta, deslocamento e preço mais alto.

Implicações para políticas públicas

Ampliar a lista de medicamentos isentos de prescrição para moléculas antigas e de perfil de segurança bem estabelecido reduziria a barreira dupla de consulta mais preço, sem perda sanitária relevante. Expandir a cobertura de genéricos nas classes de tarja vermelha, onde está a maior parte do mercado e o maior prêmio de preço, teria efeito distributivo direto. E publicar rotineiramente o preço mediano por classe terapêutica, e não apenas o teto por apresentação, permitiria monitorar se a regulação de preço da CMED está de fato contendo custo ou apenas homologando o praticado.