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Tema 39 de 43

Justiça, Tribunais de Contas e Custo do Judiciário

92% de tudo que a Justiça estadual brasileira gasta vai para pessoal — e o Distrito Federal gasta 6,9 vezes mais por habitante que o Ceará.

O Conselho Nacional de Justiça publica, tribunal por tribunal, a estrutura de gastos do Judiciário brasileiro: quanto custa, com o quê, e com quantas pessoas. É um dos poucos registros em que um Poder da República detalha a própria despesa em nível comparável entre unidades da federação. Somado aos dados dos tribunais de contas estaduais e do cadastro de improbidade administrativa do CNJ, permite responder uma pergunta que raramente é feita de forma quantitativa: o custo da Justiça no Brasil varia conforme o quê — o tamanho da população, a demanda por processos, ou a capacidade fiscal de cada estado em sustentar sua própria estrutura?

Nove de cada dez reais da Justiça vão para gente

Somando os tribunais de Justiça estaduais, a proporção média de despesa com recursos humanos sobre a despesa total é de 92,0%. Isso inclui magistrados, servidores, terceirizados, estagiários, inativos e pensionistas. Sobram, em média, 8% para tudo o mais: prédios, sistemas, informatização, manutenção, expansão de comarcas. A estrutura de pessoal por trás desse número é de 41.664 cargos de magistrado providos, 526.770 servidores e 128.498 terceirizados — ou seja, para cada magistrado há cerca de 13 servidores e mais 3 terceirizados.

Composição de pessoal e despesa da Justiça estadual (CNJ, 2021)
IndicadorValor
Proporção média de despesa com RH92,0%
Cargos de magistrado providos41.664
Servidores526.770
Terceirizados128.498
Servidores por magistrado~13
Restante para custeio e investimento~8%

Com 92% do orçamento comprometido com pessoal, qualquer política de modernização do Judiciário disputa espaço dentro dos 8% restantes.

O custo da Justiça por habitante varia 6,9 vezes entre estados

A despesa da Justiça estadual por habitante vai de R$ 143 no Ceará a R$ 989 no Distrito Federal — uma variação de 6,9 vezes entre as pontas. Rondônia (R$ 572), Mato Grosso (R$ 449) e Roraima (R$ 433) aparecem no topo, enquanto Pará (R$ 159), Maranhão (R$ 185) e Amazonas (R$ 194) ficam na base. A distribuição não acompanha renda nem população: estados pequenos e de baixa densidade tendem a custar mais por habitante porque a estrutura mínima de uma comarca não diminui proporcionalmente ao número de moradores.

Despesa da Justiça estadual por habitante (CNJ, 2021)
UFR$ por habitante% da despesa com RH
Distrito Federal98997,0%
Rondônia57285,9%
Mato Grosso44989,7%
Roraima43392,3%
Amapá41688,7%
Amazonas194
Maranhão185
Pará159
Ceará143

Um habitante do Distrito Federal custa à Justiça estadual quase sete vezes o que custa um cearense — sem que isso signifique sete vezes mais acesso.

Onde mais se gasta, mais se gasta com pessoal

Os dois indicadores não são independentes. O Distrito Federal, campeão em despesa por habitante, é também o que mais compromete orçamento com pessoal: 97,0%, ou seja, restam três centavos de cada real para tudo que não seja folha. Rondônia, segundo em gasto per capita, tem a menor proporção de RH entre os estados do topo (85,9%), o que significa comparativamente mais margem para custeio e investimento. A correlação sugere que gasto per capita elevado raramente reflete melhor infraestrutura judiciária — reflete, na maior parte, uma folha maior distribuída por menos habitantes.

Margem para custeio e investimento nos estados de maior gasto per capita
UFGasto por habitanteSobra fora da folha
Distrito FederalR$ 9893,0%
RoraimaR$ 4337,7%
Mato GrossoR$ 44910,3%
AmapáR$ 41611,3%
RondôniaR$ 57214,1%

No Distrito Federal sobram 3 centavos de cada real da Justiça para prédios, sistemas e informatização — o resto é folha.

Cruzamentos poderosos

Hipóteses explicativas

A rigidez da despesa com pessoal no Judiciário decorre de garantias constitucionais — irredutibilidade de subsídios, vitaliciedade, regime próprio de previdência — que tornam a folha praticamente incompressível no curto prazo. Isso produz um orçamento onde a variável de ajuste é sempre o investimento, e não a despesa corrente, o que ajuda a explicar por que informatização e expansão de comarcas avançam de forma desigual entre tribunais. A variação de custo por habitante, por sua vez, reflete um problema clássico de economia de escala em serviços públicos territorializados: manter uma comarca funcionando exige um mínimo de estrutura que independe de quantas pessoas ela atende, penalizando estados pouco povoados.

Implicações para políticas públicas

Se 92% do orçamento é folha e a folha é rígida, ganhos de eficiência no Judiciário dependem mais de redesenho de processos — digitalização, unificação de comarcas, resolução consensual — do que de aumento orçamentário. A variação de 6,9 vezes no custo por habitante sugere espaço para consórcios e comarcas regionais em estados de baixa densidade, onde a estrutura mínima hoje é replicada município a município. E publicar rotineiramente o indicador de despesa fora da folha, e não apenas o total, tornaria visível qual tribunal de fato tem capacidade de investir em acesso à Justiça.