Tema 38 de 43
Educação Básica, Alfabetização e Comparação Internacional
O quartil mais rico dos estudantes brasileiros tira 425 pontos em matemática no PISA — ainda abaixo da média da OCDE, que é 465.
O Brasil participa do PISA desde 2000, aplica avaliação nacional de alfabetização desde 2023 e mantém, no Censo Escolar, o retrato da educação especial matriculada em rede regular. Lidos separadamente, esses registros produzem manchetes previsíveis sobre desempenho ruim. Lidos juntos, revelam algo mais incômodo: a defasagem brasileira não é apenas uma questão de desigualdade interna que poderia ser corrigida elevando a base, porque nem mesmo o topo da distribuição socioeconômica nacional alcança a média dos países ricos. A diferença entre o aluno brasileiro mais rico e o aluno médio da OCDE é maior que a diferença entre o aluno brasileiro mais rico e o mais pobre.
Nem o topo brasileiro alcança a média da OCDE
Na edição mais recente do PISA, estudantes brasileiros somam em média 378 pontos em matemática e 412 em leitura, contra 465 e 480 dos países da OCDE — uma defasagem de 87 pontos em matemática, o equivalente a cerca de três anos de escolaridade pela régua da própria OCDE. Dividindo os alunos brasileiros em quartis pelo índice socioeconômico do PISA, o quartil mais pobre marca 347 e o mais rico 425. A distância interna brasileira (78 pontos) é menor que a distância entre o topo brasileiro e a média da OCDE (40 pontos abaixo) somada ao que ainda falta: mesmo o aluno brasileiro de família mais estruturada, com mais livros em casa e pais mais escolarizados, tem desempenho abaixo do estudante mediano de um país rico.
| Grupo | Matemática | Distância para a OCDE |
|---|---|---|
| Brasil — quartil mais pobre | 347 | -118 |
| Brasil — 2º quartil | 364 | -101 |
| Brasil — 3º quartil | 380 | -85 |
| Brasil — quartil mais rico | 425 | -40 |
| Média OCDE | 465 | — |
A elite socioeconômica brasileira tira 425 em matemática; o aluno mediano da OCDE tira 465. O teto nacional está abaixo da média internacional.
A alfabetização subiu 10 pontos em dois anos — e ainda deixa 1 em 3 para trás
A avaliação nacional de alfabetização, aplicada ao fim do 2º ano do ensino fundamental, mostra a rede pública saindo de 55,9% de crianças alfabetizadas na idade adequada em 2023 para 66,0% em 2025 — uma alta de 10,1 pontos percentuais em dois ciclos, ritmo raro em indicadores educacionais. O dado é simultaneamente a melhor e a pior notícia do tema: melhor porque mostra que a política de alfabetização na idade certa produz efeito mensurável e rápido; pior porque, mesmo nesse ritmo, um terço das crianças brasileiras ainda termina o 2º ano sem ler adequadamente.
| Ano | Alfabetizados na idade adequada | Variação |
|---|---|---|
| 2023 | 55,9% | — |
| 2024 | 59,2% | +3,3 p.p. |
| 2025 | 66,0% | +6,8 p.p. |
Dez pontos percentuais em dois anos é um avanço real e acelerado — mas 34% das crianças da rede pública ainda saem do 2º ano sem estar alfabetizadas.
Na educação especial, a reprovação se concentra onde deveria haver acolhimento
Entre estudantes da educação especial matriculados em rede regular, a reprovação é de 10,7% nos anos iniciais do fundamental — quase três vezes a do ensino médio (3,8%) e o triplo dos anos finais (3,4%). O padrão inverte a lógica esperada: normalmente a reprovação cresce com a complexidade do conteúdo, mas aqui ela é máxima justamente na etapa de alfabetização, quando o suporte pedagógico especializado deveria ser mais intenso. O abandono, por sua vez, cresce com a idade e atinge 4,5% no ensino médio.
| Etapa | Reprovação | Abandono |
|---|---|---|
| Ensino Fundamental — Anos Iniciais | 10,7% | 1,4% |
| Ensino Fundamental — Anos Finais | 3,4% | 2,5% |
| Ensino Médio Regular | 3,8% | 4,5% |
A reprovação na educação especial é três vezes maior na alfabetização que no ensino médio — o gargalo está na porta de entrada, não na complexidade do conteúdo.
Menos da metade dos professores municipais ensina o que estudou
A hipótese levantada acima — de que a defasagem brasileira tem componente de qualidade média do sistema, e não apenas de desigualdade — pode ser testada diretamente. O indicador de adequação da formação docente do INEP mede quantos professores têm licenciatura na disciplina que lecionam. Nos anos finais do fundamental, etapa em que o ensino passa a ser por disciplina, apenas 56,7% dos docentes têm formação adequada, e na rede municipal esse número cai para 46,7%: menos da metade. Na EJA do fundamental, a proporção despenca para 31,6%. O dado sustenta a hipótese: um sistema em que metade dos professores ensina matéria que não estudou produz teto baixo em qualquer estrato socioeconômico, o que explica por que nem o quartil mais rico alcança a média da OCDE. O achado mais contraintuitivo, porém, é que a rede privada tem formação docente pior que a pública em várias etapas — 57,9% contra 73,5% nos anos iniciais, e 46,9% contra 64,0% na educação infantil.
| Etapa | Rede pública | Rede municipal | Rede privada |
|---|---|---|---|
| Fundamental — anos iniciais | 73,5% | 71,2% | 57,9% |
| Fundamental — anos finais | 55,7% | 46,7% | 61,4% |
| Educação infantil | 64,0% | 64,0% | 46,9% |
| EJA — fundamental | 32,2% | 27,0% | 22,3% |
| EJA — médio | 58,2% | 47,3% | 44,5% |
Na rede municipal dos anos finais do fundamental, 53% dos professores ensinam disciplina para a qual não têm licenciatura — e na EJA a proporção passa de dois terços.
Quase metade dos professores estaduais é temporária
A adequação da formação docente vista acima ganha explicação quando se olha o vínculo. Na rede estadual, 48,5% dos docentes trabalham sob contrato temporário — praticamente empatado com os 49,8% de concursados. Na municipal são 34,4% de temporários, e na federal apenas 12,9%. Contratação temporária é o instrumento com que a rede tapa buraco de vaga no início do ano letivo, e ela seleciona por disponibilidade imediata, não por formação na disciplina: é o mecanismo pelo qual um professor sem licenciatura em matemática acaba dando matemática. As duas séries se encaixam — a rede com mais temporários é também a que tem menos da metade dos docentes formados na matéria que leciona nos anos finais.
| Rede | Concursado | Temporário | CLT / Terceirizado |
|---|---|---|---|
| Federal | 86,4% | 12,9% | 0,8% |
| Municipal | 63,2% | 34,4% | 2,4% |
| Estadual | 49,8% | 48,5% | 1,6% |
A rede estadual tem quase tantos professores temporários quanto concursados — e é onde a formação adequada à disciplina mais falta.
Cruzamentos poderosos
- PISA × Classe: o quartil mais rico do Brasil (425) fica abaixo da média da OCDE (465).
- Brasil × OCDE: 87 pontos de defasagem em matemática, cerca de três anos de escolaridade.
- Alfabetização × Ritmo: +10,1 p.p. em dois anos na rede pública, de 55,9% para 66,0%.
- Educação especial × Etapa: reprovação de 10,7% na alfabetização contra 3,8% no médio.
- Abandono × Idade: cresce de 1,4% nos anos iniciais para 4,5% no ensino médio.
- Desigualdade interna × externa: a distância Brasil-OCDE supera a distância entre ricos e pobres no Brasil.
- Formação docente × Rede: só 46,7% dos professores municipais dos anos finais têm licenciatura na disciplina.
- Vínculo × Formação: 48,5% dos docentes estaduais são temporários, a rede com pior adequação de formação.
Hipóteses explicativas
O fato de o topo socioeconômico brasileiro não alcançar a média da OCDE sugere que o problema não é apenas distributivo, mas sistêmico: se fosse só desigualdade, elevar a base bastaria; como o teto também está baixo, há um componente de qualidade média do sistema — formação docente, tempo de instrução efetivo, currículo — que afeta todos os estratos. A aceleração da alfabetização, por outro lado, indica que intervenções focadas e bem medidas produzem resultado rápido, o que reforça a hipótese de que a defasagem é de política pública, não de capacidade dos alunos. Já a concentração de reprovação na educação especial durante a alfabetização aponta para escassez de atendimento educacional especializado justamente na etapa em que ele é decisivo.
Implicações para políticas públicas
Se nem o quartil mais rico alcança a média internacional, políticas focadas exclusivamente em equidade não fecham a lacuna — é preciso elevar simultaneamente o piso e o teto, o que passa por formação e carreira docente. O ritmo da alfabetização recente sugere que metas anuais públicas com medição censitária funcionam e devem ser estendidas a outras etapas. E a reprovação na educação especial nos anos iniciais indica necessidade de ampliar o atendimento educacional especializado na alfabetização, onde hoje o suporte é mais escasso e o custo do fracasso é mais duradouro.