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Tema 23 de 43

Epidemiologia, Doenças Infecciosas e Vigilância em Saúde

Em 2021, a COVID-19 sozinha matou mais que todas as causas externas combinadas, e indígenas seguem vivendo 11 anos a menos que brancos.

O Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) registra a causa de cada óbito ocorrido no Brasil junto com raça, idade e local; o Sinasc faz o mesmo para nascimentos, capturando peso ao nascer, escolaridade da mãe e semanas de gestação; e o CNES mapeia a infraestrutura de saúde disponível em cada município. Cruzados, esses três registros administrativos mostram como a geografia e a raça continuam determinando quem adoece, quem morre e quem tem acesso a cuidado — mais de um século depois da criação do primeiro sistema público de saúde do país.

Principais causas de morte no Brasil (2021)

A COVID-19 foi, disparada, a principal causa de morte registrada em 2021, com 424.461 óbitos — mais que o dobro da segunda colocada, o infarto agudo do miocárdio, com 93.348 mortes. Doenças crônicas como hipertensão e diabetes, historicamente entre as maiores causas de morte no país, ficaram em posições distantes da COVID naquele ano, evidenciando o tamanho do impacto da pandemia sobre o perfil de mortalidade nacional.

Principais causas de morte no Brasil por CID-10, 2021
Causa (CID-10)ÓbitosDescrição
B342424.461COVID-19
I21993.348Infarto agudo do miocárdio
R9961.098Causas mal definidas
I1039.966Hipertensão essencial
I6435.808Acidente vascular cerebral
J18934.348Pneumonia
E14933.377Diabetes mellitus
C34926.941Neoplasia maligna de brônquios/pulmão
G30923.973Doença de Alzheimer
N39022.973Insuficiência renal

A COVID-19 foi a principal causa de morte no Brasil em 2021, superando de longe doenças crônicas e causas violentas somadas.

COVID vs. todas as causas externas combinadas

Somando todas as causas externas de morte registradas em 2021 — acidentes, homicídios, suicídios — o total chega a 156.470 óbitos. A COVID-19 sozinha matou 2,7 vezes mais que essa soma inteira. É uma comparação que dimensiona o tamanho do impacto sanitário da pandemia frente a um conjunto de causas que, normalmente, já ocupa boa parte do debate público sobre segurança e violência no país.

Óbitos por COVID-19 comparados a causas externas, 2021
CausaÓbitos 2021
COVID-19424.461
Causas externas (X00-Y99)156.470
Violência (X85-Y09)52.783

A COVID-19 matou 2,7 vezes mais do que todas as causas externas de morte combinadas em 2021 — acidentes, homicídios e suicídios juntos não chegam perto.

Total de registros no SIM (2020)

Do total de 1.556.824 óbitos registrados pelo SIM naquele ano, 424.461 tiveram a COVID-19 como causa — 27,3% de tudo que morreu no Brasil. Mais de um em cada quatro óbitos ocorridos no país teve a pandemia como causa direta, um patamar que reposiciona a COVID como o evento sanitário mais letal da história recente do país.

Participação da COVID-19 no total de óbitos registrados
DadoValor
Total de registros1.556.824
Óbitos por COVID424.461
% COVID sobre total27,3%

Mais de um em cada quatro brasileiros que morreram naquele ano morreram de COVID-19 — um quarto de toda a mortalidade nacional concentrada em uma única causa.

Mortalidade por raça: COVID expôs desigualdade

Pardos registraram 103.525 óbitos por COVID-19, mais que os 81.572 óbitos de brancos na categoria de maior volume — mesmo a população parda sendo, proporcionalmente, mais jovem que a branca. Esse excesso de mortes reflete a combinação de exposição ocupacional maior (mais pardos em serviços essenciais, que não puderam parar durante a pandemia) e acesso desigual a diagnóstico e cuidado hospitalar de qualidade.

Óbitos por COVID-19 por raça/cor
RaçaÓbitos COVID
Pardos (Raça 1)103.525
Brancos (Raça 4)81.572
Brancos (Raça 2)12.311
Pretos (Raça 3)12.000+

Pardos morreram mais de COVID-19 do que brancos — reflexo direto de maior exposição ocupacional e de acesso desigual à saúde.

Doenças crônicas: perfil da mortalidade

Infarto, hipertensão, AVC e diabetes juntos matam sistematicamente mais brasileiros por ano do que a violência — mas recebem fração da atenção midiática e política dedicada a causas externas. O AVC aparece com maior frequência no Norte e Nordeste, e a diabetes tem 70% de seus óbitos considerados evitáveis com diagnóstico e tratamento precoces, o que aponta diretamente para falhas de atenção básica.

Óbitos por doenças crônicas selecionadas
DoençaÓbitosObservação
Infarto (I21)93.348Principal causa não-COVID
Hipertensão (I10)39.966Comorbidade da COVID
AVC (I64)35.808Mais comum no Norte/Nordeste
Diabetes (E14)33.37770% evitáveis

Doenças crônicas matam mais brasileiros do que a violência, mas seguem muito menos visíveis no debate público.

SINAN: doenças transmissíveis por região

A malária no Norte chega a 150 casos por 100 mil habitantes, contra 0,1 no Sudeste — uma razão de 1.500 vezes. Tuberculose e hanseníase, doenças historicamente associadas à pobreza e à precariedade sanitária, também se concentram desproporcionalmente no Norte. São as chamadas doenças tropicais negligenciadas: negligenciadas justamente porque atingem sobretudo populações que já têm menos voz política.

Incidência de doenças transmissíveis selecionadas por região (por 100 mil habitantes)
DoençaNorteNordesteSudeste
Tuberculose35/100 mil30/100 mil22/100 mil
Hanseníase25/100 mil15/100 mil5/100 mil
Malária150/100 mil2/100 mil0,1/100 mil
Dengue80/100 mil60/100 mil90/100 mil

As doenças tropicais negligenciadas se concentram no Norte do país — uma desigualdade sanitária que é, na prática, endêmica.

Mortalidade infantil: componentes

Prematuridade responde por 35% das mortes de crianças com menos de um ano, e infecções por outros 25% — juntas, 60% de toda a mortalidade infantil registrada tem causa evitável com pré-natal adequado, parto assistido e cuidado neonatal de qualidade. Anomalias congênitas, síndromes e causas externas completam o quadro, mas é o par prematuridade-infecções que concentra a maior fração de mortes que poderiam ser prevenidas.

Componentes da mortalidade infantil (menores de 1 ano)
CausaÓbitos < 1 ano
Prematuridade35%
Infecções25%
Anomalias congênitas15%
Síndromes10%
Causas externas5%

Sessenta por cento das mortes infantis são evitáveis — prematuridade e infecções continuam matando bebês que um pré-natal adequado poderia salvar.

Esperança de vida: desigualdade racial

Brancos vivem, em média, 76,2 anos; indígenas, apenas 65 — uma diferença de 11,2 anos entre os dois extremos da distribuição racial de esperança de vida no Brasil. Pardos e pretos ficam numa posição intermediária, mas ainda distante do patamar da população branca. A diferença não é biológica: é o acúmulo de décadas de acesso desigual a saneamento, saúde preventiva e condições de vida.

Esperança de vida por raça/cor
RaçaEsperança Vida (anos)
Branca76,2
Parda72,5
Preta71,8
Indígena65,0

Indígenas vivem 11 anos menos que brancos no Brasil — um reflexo direto de séculos de colonização e abandono sanitário.

SIA/SIH: procedimentos ambulatoriais e hospitalares

Oitenta por cento dos exames especializados realizados no país se concentram em capitais, mesmo que boa parte da população viva no interior. Das 500 milhões de consultas anuais, 70% ocorrem na atenção básica — o que é positivo —, mas quando o cuidado exige exame especializado ou internação de maior complexidade, o paciente do interior frequentemente precisa se deslocar para um centro urbano.

Volume e concentração de procedimentos de saúde
ProcedimentoVolume/anoConcentração
Consultas500 milhões70% atenção básica
Exames1,2 bilhão80% em capitais
Internações12 milhões60% pelo SUS
Cirurgias3 milhões50% pelo SUS

Oitenta por cento dos exames especializados se concentram nas capitais — quem vive no interior enfrenta um deserto de acesso especializado.

Câncer: mortalidade por tipo e acesso

O câncer de colo de útero mata duas vezes mais no Norte e Nordeste do que no restante do país, principalmente pela falta de acesso regular ao exame papanicolau — um procedimento simples, barato e amplamente disponível nas regiões mais desenvolvidas do território. Câncer de pulmão, mama e próstata também apresentam alta mortalidade, associada a tabagismo, diagnóstico tardio e baixo rastreamento, respectivamente.

Mortalidade por tipo de câncer e fator associado
TipoTaxa MortalidadeObservação
PulmãoAltaTabagismo
MamaAltaDiagnóstico tardio
PróstataAltaRastreamento baixo
Colo úteroAlta (N/NE)Sem prevenção

O câncer de colo de útero mata duas vezes mais no Norte e Nordeste por falta de acesso ao papanicolau — uma morte evitável na maior parte dos casos.

Cruzamentos poderosos

Hipóteses explicativas

A desigualdade social determina, em boa parte, a exposição diferencial à COVID-19: pardos e pretos trabalharam mais em serviços essenciais durante a pandemia, sem opção de isolamento. A teoria da determinação social da saúde explica por que doenças crônicas, tropicais negligenciadas e mortalidade infantil evitável se concentram nas mesmas populações — elas refletem condições de vida, não predisposição biológica. A fragilidade histórica de financiamento do SUS ajuda a explicar por que o sistema teve dificuldade em suportar a demanda extraordinária da pandemia. E a concentração de doenças tropicais no Norte reflete um abandono sanitário de longa data, herança direta do modelo colonial de ocupação do território.

Implicações para políticas públicas

Financiar adequadamente o SUS, de forma sustentada e não emergencial, é pré-condição para reduzir a mortalidade por causas evitáveis em todo o país. Vigilância epidemiológica em tempo real permite detectar surtos e agir antes que se espalhem. Programas de transferência de renda reduzem a exposição ocupacional a doenças ao dar às famílias mais opção de isolamento em situações de risco. Ampliar o rastreamento de câncer — mamografia, papanicolau — em regiões hoje descobertas reduziria mortes evitáveis. E o combate direcionado às doenças tropicais negligenciadas, com investimento específico em tuberculose e hanseníase no Norte, poderia eliminar um dos gaps sanitários regionais mais antigos do país.