Tema 20 de 43
Ciência, Tecnologia, Bolsas de Estudo e Produção Acadêmica
O Brasil investe menos de um terço do que a Coreia do Sul em pesquisa, concentra 70% das bolsas de estudo no Sudeste e deixa 85% das patentes nas mãos de estrangeiros.
As 227.257 bolsas registradas pelo CNPq em um único ano, cruzadas com o desempenho brasileiro no PISA — o exame internacional que mede aprendizado de matemática, ciências e leitura entre estudantes de 65 países — mostram o mesmo país por dois ângulos diferentes: um sistema educacional que forma mal e uma política científica que investe pouco e distribui de forma desigual o pouco que investe. Os dois problemas se retroalimentam.
O Brasil no PISA: sempre no fundo
Em matemática, o Brasil aparece na 57ª posição entre 65 países avaliados; em ciências, na 58ª. Não são posições medianas — são posições de cauda, atrás de praticamente todo país desenvolvido e de boa parte da América Latina. Esse desempenho de base compromete diretamente a capacidade futura do país de formar cientistas, engenheiros e pesquisadores competitivos.
| Disciplina | Ranking | Pontos |
|---|---|---|
| Matemática | 57/65 | 377 |
| Ciências | 58/65 | 404 |
O Brasil figura entre os piores do mundo em matemática e ciências — a base do funil que deveria alimentar a produção científica nacional já nasce fraca.
P&D: a vergonha brasileira
O Brasil investe 1,2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento; a Coreia do Sul investe 4,5% — quase quatro vezes mais. Essa diferença de investimento explica boa parte da distância tecnológica entre os dois países, que partiram de níveis de desenvolvimento parecidos há poucas décadas e hoje ocupam posições completamente diferentes na hierarquia da inovação global.
| Indicador | Brasil | Coreia |
|---|---|---|
| % PIB em P&D | 1,2% | 4,5% |
O Brasil investe quatro vezes menos em pesquisa e desenvolvimento do que a Coreia do Sul — a distância tecnológica entre os dois países não é acidente, é orçamento.
Bolsas: concentração absurda
Setenta por cento de todas as bolsas de pesquisa do CNPq vão para o Sudeste; Norte e Nordeste, juntos, ficam com apenas 15%. A política de fomento científico reproduz e aprofunda a desigualdade regional em vez de corrigi-la — quem já tem universidade forte e infraestrutura de pesquisa consolidada recebe mais recursos para continuar crescendo, enquanto o resto do país segue com fomento residual.
| Região | % Bolsas |
|---|---|
| Sudeste | 70% |
| Norte+Nordeste | 15% |
A ciência brasileira é de elite para elite — o fomento à pesquisa reproduz a mesma desigualdade regional presente em quase toda política pública do país.
Produção científica: quantidade vs. qualidade
O Brasil publica cerca de 70 mil artigos científicos por ano, ocupando a 13ª posição mundial em volume de produção. Mas o volume não se traduz em impacto: o número de citações por artigo é baixo, o que sugere que a produção acadêmica brasileira é abundante em quantidade e questionável em qualidade — sintoma clássico de uma cultura acadêmica que prioriza a publicação em si sobre a relevância do que é publicado.
| Indicador | Brasil | Obs |
|---|---|---|
| Artigos | 70.000/ano | 13º mundial |
| Citações | baixo | qualidade questionável |
O Brasil publica muito e é pouco citado — muitos artigos, pouco impacto real na fronteira do conhecimento.
CAPES: distribuição de programas por região
O Norte concentra apenas 7% dos programas de pós-graduação do país, e desses, só 10% recebem nota alta (7 ou mais) da CAPES. No Sudeste, 55% dos programas estão concentrados ali, e 60% deles têm nota alta. A pós-graduação de excelência é praticamente inacessível para quem estuda fora do eixo Sul-Sudeste-Centro-Oeste.
| Região | Programas | Nota 7+ |
|---|---|---|
| Sudeste | 55% | 60% |
| Sul | 18% | 50% |
| Nordeste | 15% | 25% |
| Norte | 7% | 10% |
| Centro-Oeste | 5% | 30% |
O Norte tem só 7% dos programas de pós-graduação do país, e apenas 10% deles alcançam nota alta — a excelência acadêmica segue concentrada onde sempre esteve.
INPI: patentes registradas vs. concedidas
Das patentes concedidas pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial, 85% pertencem a não residentes — ou seja, a empresas e inventores estrangeiros. Residentes brasileiros ficam com apenas 15% das patentes concedidas no próprio país. O Brasil registra pouco do que inventa porque, em boa medida, quem inventa e patenteia aqui não é brasileiro.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Depositadas/ano | 30.000 |
| Concedidas/ano | 5.000 |
| Por residentes | 15% |
| Por não residentes | 85% |
Oitenta e cinco por cento das patentes concedidas no Brasil são de estrangeiros — o brasileiro inova pouco e registra menos ainda.
PISA: ranking brasileiro por habilidade
Detalhando o desempenho por habilidade, o Brasil fica em 57º em matemática, 58º em ciências e 54º em leitura, sempre entre os últimos colocados dos 65 países avaliados. É um desempenho pior que o de todos os países da OCDE e de boa parte da América Latina — um alerta sobre a base educacional que sustenta, ou deixa de sustentar, toda a cadeia de produção científica do país.
| Habilidade | Posição (65 países) |
|---|---|
| Matemática | 57/65 |
| Ciências | 58/65 |
| Leitura | 54/65 |
Entre os piores do mundo em todas as habilidades avaliadas — pior que todos os países da OCDE e que muitos vizinhos latino-americanos.
CNPq: distribuição de bolsas por grande área
Ciências Exatas — engenharias e computação — recebem 35% de todas as bolsas do CNPq, a maior fatia entre as grandes áreas. Humanidades ficam com apenas 8%, a menor fatia de todas. O fomento científico brasileiro tem um viés claro em favor da tecnologia e contra as ciências sociais e humanas, mesmo que estas sejam essenciais para entender e mudar os próprios problemas que o país enfrenta.
| Área | % Bolsas | Observação |
|---|---|---|
| Ciências Exatas | 35% | Engenharias, computação |
| Ciências Biológicas | 20% | — |
| Ciências Agrárias | 15% | — |
| Ciências Sociais | 12% | — |
| Humanidades | 8% | Mais baixa |
As bolsas de pesquisa se concentram em ciências exatas — ciências sociais e humanas seguem como prioridade secundária no fomento científico brasileiro.
Cruzamentos poderosos
- PISA × Investimento: pouco investimento educacional resulta em mau desempenho.
- Bolsas × Região: ciência não chega ao Norte do país.
- Artigos × Citações: publica-se em volume, mas para pouco impacto real.
- CAPES × Norte: 7% dos programas e apenas 10% com nota alta — ciência concentrada.
- Patentes × Estrangeiros: 85% das patentes concedidas pertencem a multinacionais, não a brasileiros.
- PISA × Ranking: pior que a OCDE inteira e que muitos países da América Latina.
- CNPq × Área: 35% das bolsas em exatas contra 8% em humanas — viés tecnológico no fomento.
- Artigos × Qualidade: muitos artigos, poucas citações — cultura de publicar por publicar.
Hipóteses explicativas
O baixo desempenho educacional na base — evidenciado pelo PISA — ajuda a explicar por que o investimento em P&D não se converte em resultado científico proporcional: falta uma base de estudantes bem formados para sustentar a pirâmide da pesquisa. A concentração regional de bolsas perpetua desigualdades que já existem em outras dimensões da vida brasileira. A baixa taxa de patenteamento por residentes reflete tanto a falta de investimento quanto uma cultura de dependência tecnológica que remonta a décadas. E o viés do fomento em favor de ciências exatas revela uma política que privilegia tecnologia em detrimento das ciências sociais — ignorando que desenvolvimento de verdade também depende de instituições fortes, e instituições são objeto de estudo das humanidades.
Implicações para políticas públicas
Investir mais e melhor na educação básica é pré-condição para qualquer melhora sustentável no desempenho do PISA. Descentralizar bolsas de pesquisa e programas de pós-graduação ajudaria a desenvolver polos científicos fora do eixo Sul-Sudeste. Incentivos fiscais e de crédito para patenteamento por residentes poderiam estimular a inovação nacional. Avaliar e financiar programas de ciências sociais com o mesmo rigor dado às áreas técnicas valorizaria um campo hoje secundarizado. E investir na formação de professores em universidades de excelência — não só em pesquisa avançada — pode ajudar a quebrar o ciclo que começa no mau desempenho educacional e termina na dependência tecnológica.