Tema 25 de 43
Orçamento Federal, Emendas Parlamentares e Execução Orçamentária
O governo federal gasta vinte vezes mais com juros da dívida do que com o Bolsa Família, e R$ 40 bilhões em emendas seguiram sem destinatário identificado.
A execução orçamentária por unidade gestora, publicada pelo Tesouro Nacional, as emendas parlamentares registradas pela Controladoria-Geral da União, a arrecadação tributária por estado da Receita Federal e as operações de crédito rural do Banco Central formam, juntas, o retrato mais completo disponível de como o dinheiro público federal é decidido, arrecadado e efetivamente gasto. O que esse retrato mostra é um orçamento em que boa parte do que é autorizado nunca vira serviço entregue, uma fatia relevante segue sem qualquer rastro de destinatário, e o serviço da dívida consome, sozinho, vinte vezes mais recursos do que o principal programa de transferência de renda do país.
Total de emendas parlamentares (2022+)
Desde 2022, o Congresso já destinou R$ 152,7 bilhões em 25.518 emendas parlamentares, a uma média de R$ 5,98 milhões por emenda. É um volume de recursos próximo do dobro do que o país gasta anualmente com o Bolsa Família — só que decidido por parlamentares individualmente, sem a mesma lógica de focalização em quem mais precisa que orienta o desenho de um programa social.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Total de emendas | 25.518 |
| Valor total | R$ 152,7 bilhões |
| Valor médio por emenda | R$ 5,98 milhões |
R$ 152 bilhões em emendas parlamentares — quase o dobro do que o país inteiro gasta por ano com o Bolsa Família.
Execução orçamentária: quanto vira despesa real?
Em nenhum dos anos analisados a taxa de execução do orçamento chegou perto de 100%. Em 2019, apenas 44% do que foi empenhado virou despesa liquidada; mesmo em 2024, ano de melhor desempenho da série, ainda restaram 30% sem execução completa. A diferença entre o que se promete e o que se entrega não é um detalhe técnico — é a distância entre o discurso político do orçamento e sua entrega real à população.
| Ano | Empenhado (R$ bi) | Liquidado (R$ bi) | Taxa |
|---|---|---|---|
| 2018 | 12,0 | 5,6 | 46% |
| 2019 | 13,9 | 6,1 | 44% |
| 2020 | 37,5 | 18,2 | 49% |
| 2021 | 33,4 | 16,0 | 48% |
| 2022 | 25,5 | 17,2 | 68% |
| 2023 | 35,4 | 22,1 | 62% |
| 2024 | 44,8 | 31,5 | 70% |
Historicamente, mais da metade do orçamento autorizado nunca é de fato executada — a diferença some do radar público sem que ninguém precise justificar por quê.
Emendas do Relator Geral: concentração extrema
Uma única pessoa, o relator geral do Orçamento, controla sozinha R$ 8,6 bilhões em emendas, direcionados majoritariamente para saúde. É uma concentração de poder decisório que escapa ao processo usual de disputa parlamentar dispersa entre centenas de deputados e senadores, concentrando em uma única função — o relator — a capacidade de definir onde bilhões de reais serão gastos.
| Função | Valor (R$ bi) |
|---|---|
| Saúde | R$ 6,36 bi |
| Assistência Social | R$ 0,96 bi |
| Múltiplo | R$ 0,56 bi |
| Urbanismo | R$ 0,26 bi |
| Educação | R$ 0,21 bi |
| Desporto | R$ 0,19 bi |
Uma única pessoa — o relator geral — controla R$ 8,6 bilhões em emendas, concentração de poder decisório incompatível com qualquer ideia de orçamento democraticamente disputado.
Concentração setorial das emendas
Mais da metade de todo o valor de emendas parlamentares, 51,8%, vai para a função Saúde — R$ 79,2 bilhões. Segurança Pública, com 1,4% do total, e Assistência Social, com 2,6%, ficam com frações residuais frente a esse montante. A concentração setorial das emendas revela onde os parlamentares concentram poder de barganha eleitoral, o que nem sempre coincide com onde a carência social é maior.
| Função | % do Total | Valor (R$ bi) |
|---|---|---|
| Saúde | 51,8% | R$ 79,2 bi |
| Encargos especiais | 16,8% | R$ 25,6 bi |
| Urbanismo | 7,6% | R$ 11,6 bi |
| Agricultura | 4,4% | R$ 6,7 bi |
| Educação | 3,6% | R$ 5,6 bi |
| Assistência Social | 2,6% | R$ 3,9 bi |
| Segurança Pública | 1,4% | R$ 2,1 bi |
Mais da metade de todas as emendas parlamentares vai para a saúde — um único setor concentra o poder de barganha eleitoral do Congresso inteiro.
Estrutura tributária: empresas vs. trabalhadores
O IRPJ, imposto sobre o lucro das empresas, arrecadou R$ 315,2 bilhões em 2022, contra R$ 57,9 bilhões do IRPF, imposto sobre a renda das pessoas — uma razão de mais de cinco para um. Isso não significa, por si só, que o sistema tributário brasileiro seja progressivo: parte relevante da arrecadação total ainda vem de tributos sobre consumo, que pesam proporcionalmente mais sobre quem ganha menos, e que não aparecem nesse recorte específico.
| Ano | IRPF (R$ bi) | IRPJ (R$ bi) | IPI (R$ bi) |
|---|---|---|---|
| 2020 | 41,4 | 173,9 | 33,3 |
| 2021 | 56,2 | 248,3 | 41,9 |
| 2022 | 57,9 | 315,2 | 36,3 |
| 2023 | 58,6 | 300,3 | 32,2 |
| 2024 | 33,8 | 153,0 | 17,1 |
O IRPJ arrecada de três a cinco vezes mais que o IRPF, mas o sistema como um todo continua pesando desproporcionalmente sobre quem ganha menos, via tributação indireta.
Restos a pagar: a dívida oculta do governo
Em 2020, o governo inscreveu R$ 290 bilhões em restos a pagar — recursos empenhados mas não liquidados dentro do exercício, que ficam disponíveis para uso em anos futuros sem nova aprovação orçamentária. Todo ano, uma fração desse estoque — entre R$ 8 bilhões e R$ 15 bilhões — é simplesmente cancelada, dinheiro que já havia sido comprometido no papel, mas nunca se converteu em serviço entregue à população.
| Ano | Valor Inscrito (R$ bi) | Valor Cancelado (R$ bi) |
|---|---|---|
| 2019 | R$ 86 bi | R$ 12 bi |
| 2020 | R$ 290 bi | R$ 8 bi |
| 2021 | R$ 180 bi | R$ 15 bi |
| 2022 | R$ 120 bi | R$ 10 bi |
Entre R$ 12 bilhões e R$ 15 bilhões em restos a pagar são cancelados todo ano — dinheiro que foi prometido no papel e nunca virou serviço entregue.
Despesa discricionária: o que é cortado
Educação e Saúde, funções politicamente protegidas, mantiveram taxas de execução de 85% e 90% respectivamente sobre suas dotações. Ciência, com apenas 65% executado, e Meio Ambiente, com 55%, são sistematicamente os primeiros alvos de contingenciamento quando o governo precisa cortar gastos ao longo do exercício fiscal — um padrão que penaliza justamente as áreas de investimento de retorno mais lento e menos visível no curto prazo.
| Função | Dotação | Executado |
|---|---|---|
| Educação | R$ 120 bi | 85% |
| Saúde | R$ 140 bi | 90% |
| Ciência | R$ 15 bi | 65% |
| Meio Ambiente | R$ 8 bi | 55% |
Educação e saúde são protegidas do contingenciamento; ciência e meio ambiente são sempre os primeiros a serem cortados quando o orçamento aperta.
Dívida pública: serviço da dívida
O governo federal gasta R$ 700 bilhões por ano só com juros e encargos da dívida pública — vinte vezes mais do que os R$ 35 bilhões anuais destinados ao Bolsa Família. Esse desequilíbrio entre o custo do endividamento público e o investimento em transferência de renda mostra o quanto o serviço da dívida domina o espaço fiscal disponível para políticas sociais.
| Indicador | Valor/ano |
|---|---|
| Juros e encargos | R$ 700 bi |
| Bolsa Família | R$ 35 bi |
| Serviço da dívida | 20x BF |
O Brasil paga vinte vezes mais em juros da dívida do que gasta com o Bolsa Família — um orçamento onde o custo do endividamento consome o espaço que poderia ir para política social.
Carga tributária: composição
Impostos indiretos — como ICMS e IPI, cobrados sobre consumo — respondem por 55% de toda a carga tributária brasileira. Impostos diretos, como Imposto de Renda e CSLL, ficam com 35%, e impostos sobre patrimônio, que poderiam mirar diretamente grandes fortunas, ficam com menos de 5% do total arrecadado. Como o imposto sobre consumo incide igualmente sobre ricos e pobres em termos nominais, ele pesa proporcionalmente mais sobre quem ganha menos.
| Tipo | % Total |
|---|---|
| Indiretos (ICMS, IPI) | 55% |
| Diretos (IR, CSLL) | 35% |
| Impostos patrimoniais | <5% |
| Taxas | 5% |
Mais da metade de toda a arrecadação tributária brasileira vem de impostos indiretos — pagos proporcionalmente mais por quem tem menos renda.
Orçamento secreto: o gasto sem rastro
Entre 2020 e 2022, R$ 40 bilhões em emendas foram executados sem identificação clara de destinatário — o chamado orçamento secreto. Sem saber quem recebeu o quê, qualquer fiscalização real se torna impossível, seja pela imprensa, pelos órgãos de controle ou pela própria sociedade civil. É o ponto mais opaco de todo o ciclo orçamentário federal.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Emendas secretas (2020-2022) | R$ 40 bi |
| Destinatários | Omissos |
| Fiscalização | Impossível |
R$ 40 bilhões em emendas sem identificação de destinatário — opacidade total num momento em que o orçamento deveria ser o documento mais público de todos.
Cruzamentos poderosos
- Execução × Emendas: metade do orçamento autorizado não vira despesa real.
- Relator × Concentração: um único relator controla R$ 8,6 bilhões.
- Tributação × Desigualdade: empresas são tributadas de três a cinco vezes mais em IRPJ que trabalhadores em IRPF, mas o sistema segue regressivo no conjunto.
- Restos a pagar × Cancelamento: R$ 12-15 bilhões cancelados por ano — dinheiro prometido e nunca entregue.
- Discricionária × Corte: ciência executa 65% da dotação, meio ambiente apenas 55%.
- Juros × Bolsa Família: R$ 700 bilhões em juros contra R$ 35 bilhões em Bolsa Família.
- Tributação × Regressividade: 55% da arrecadação vem de impostos indiretos.
- Orçamento secreto × Opacidade: R$ 40 bilhões sem identificação de destinatário.
Hipóteses explicativas
A baixa taxa de execução pode ser explicada pela hipótese do orçamento como moeda de troca política: gestores empenham recursos para mostrar ação junto ao eleitorado, sem compromisso real de execução no curto prazo. A concentração de poder decisório em poucas mãos — relator geral, comissões específicas — revela um Legislativo capturado, no qual um número reduzido de atores controla parcela desproporcional da alocação orçamentária. A estrutura tributária regressiva no conjunto reflete um Estado capturado, no qual o capital influencia as regras para reduzir sua carga efetiva. E o orçamento secreto representa a forma mais extrema dessa captura: dinheiro público movimentado sem qualquer prestação de contas.
Implicações para políticas públicas
Ampliar a transparência ativa sobre a execução orçamentária permite escrutínio direto por parte da sociedade civil e da imprensa. Vincular o valor das emendas à efetiva execução — tratando os restos a pagar como indicador de controle, não como reserva discricionária — tende a melhorar a entrega de políticas públicas. Avançar na progressividade tributária, com maior tributação sobre patrimônio e grandes fortunas, pode corrigir parte da distorção que hoje faz o sistema pesar mais sobre quem ganha menos. Abolir de vez qualquer resquício de orçamento sem identificação de destinatário restauraria um mínimo de accountability democrática. Reduzir o custo da dívida pública liberaria parte expressiva dos R$ 700 bilhões hoje destinados a juros para políticas sociais. E reinvestir em ciência e meio ambiente — áreas hoje entre as primeiras cortadas — ajudaria a restaurar capacidades estatais de longo prazo que o país segue negligenciando.