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Tema 04 de 43

Mercado de trabalho, informalidade e estratificação

Banqueiros ganham dez vezes mais que professores, e mais de 5 milhões de vínculos formais aparecem travados no teto salarial de 99 salários mínimos — mais gente do que a população do Chile.

Os vínculos formais registrados pela Relação Anual de Informações Sociais, do Ministério do Trabalho, cobrem dezenas de milhões de trabalhadores brasileiros — remuneração, raça, sexo, ocupação e setor de cada um deles. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados complementa o retrato com o fluxo mensal de admissões e demissões. Juntos, os dois registros mostram um mercado de trabalho formal estratificado por camadas nítidas: quem ganha mais, quem entra e quem sai, e — de forma incômoda — quem provavelmente está fraudando o próprio sistema de remuneração.

Banqueiros contra professores: dez vezes de diferença

A distância salarial entre o setor bancário e o magistério básico é de uma ordem de grandeza inteira. Um banqueiro ganha, em média, o equivalente a dez professores do ensino básico. Esse diferencial não é um detalhe estatístico — é um dos sinais mais claros de para onde o mercado de trabalho formal brasileiro direciona seus jovens mais talentosos, e por que a educação básica perde essa disputa antes mesmo dela começar.

Salário médio por profissão, em salários mínimos
ProfissãoSalário médio (SM)
Banqueiros (CNAE 6423900)30,2
Professores do ensino básico (CBO 2311)3,1

Banqueiros ganham dez vezes mais do que professores — e é essa distância salarial, não falta de vocação, que explica a atração dos jovens mais talentosos para as finanças em vez da sala de aula.

Quem são os 5,4 milhões que ganham acima do teto?

A RAIS trunca os valores de remuneração em 99 salários mínimos, um teto pensado originalmente para proteger a privacidade de quem ganha muito. O problema é a distribuição desse teto por setor: construção civil e educação aparecem com centenas de milhares de vínculos travados nesse valor máximo, números incompatíveis com a realidade salarial dessas atividades. Um teto salarial concentrado em setores de baixa remuneração média não é anomalia estatística — é sinal de fraude ou de distorção grave no preenchimento dos vínculos formais.

Vínculos com remuneração acima do teto (99 SM), por setor
SetorVínculos acima do teto (99 SM)
Comércio (47)811.509
Alimentação/Acomodação (56)286.730
Construção (42)140.251
Educação (85)221.192
Administração pública (41)232.706

Construção civil e educação registram centenas de milhares de vínculos no teto do serviço público — um padrão estatisticamente impossível que só se explica por fraude ou distorção sistemática nos dados.

Gênero no topo: homens dominam

Entre os vínculos que aparecem no teto salarial, os homens são maioria expressiva. A diferença não é pequena: são mais de um milhão de vínculos masculinos a mais do que femininos nessa faixa, um desequilíbrio que se soma às demais barreiras de gênero já documentadas no mercado formal.

Vínculos no teto salarial, por sexo
SexoVínculos no teto
Masculino3.253.348
Feminino2.131.834

Homens têm 52% mais vagas no topo salarial — o teto do mercado formal também tem gênero.

A pirâmide salarial

A imensa maioria dos vínculos formais brasileiros está concentrada na base da pirâmide, entre 2 e 4 salários mínimos. Mas no topo da distribuição aparece um número que chama atenção por si só: mais de 5,3 milhões de vínculos com remuneração acima de 50 salários mínimos — uma população de tamanho comparável à população inteira do Chile, aglomerada no teto de uma única variável salarial.

Distribuição de vínculos formais por faixa salarial
FaixaVínculos
2-4 SM44.616.517
5-9 SM23.814.717
50+ SM (teto)5.385.250
10-19 SM3.202.519
1 SM1.469.467

44,6 milhões de vínculos ganham entre 2 e 4 salários mínimos, mas 5,4 milhões ganham acima de 50 — mais gente concentrada no topo da pirâmide do que a população inteira do Chile.

CAGED: admissões contra desligamentos por setor

O saldo entre admissões e desligamentos mostra qual setor está de fato gerando emprego líquido. Serviços, comércio, indústria e agricultura fecham o período no positivo. A construção civil é a única exceção relevante: mais gente sai do que entra, um padrão consistente com o setor mais informal e mais rotativo do mercado formal brasileiro.

Admissões, desligamentos e saldo por setor (CAGED)
SetorAdmitidosDesligadosSaldo
Serviços8,2 mi7,5 mi+700 mil
Comércio5,1 mi4,9 mi+200 mil
Construção1,8 mi1,9 mi-100 mil
Indústria2,0 mi1,8 mi+200 mil
Agricultura1,0 mi0,9 mi+100 mil

A construção civil é o único setor com saldo negativo de emprego — a marca de um setor definido por informalidade e alta rotatividade.

Informalidade: quatro em cada dez trabalhadores

Quase quatro em cada dez trabalhadores brasileiros estão na informalidade, sem carteira assinada e sem os direitos trabalhistas garantidos pela CLT. Somado aos autônomos sem CNPJ, o Brasil tem quase metade da força de trabalho fora da proteção previdenciária e trabalhista formal — um contingente enorme exposto a qualquer choque econômico sem rede de segurança.

Distribuição da força de trabalho por condição de formalidade
Condição% da força de trabalho
Formal com CLT45%
Informal38%
Autônomo sem CNPJ10%
Público7%

Quase metade dos trabalhadores brasileiros não tem direitos trabalhistas garantidos — férias, décimo terceiro e FGTS são privilégio, não regra.

RAIS: remuneração por ocupação — a segregação ocupacional

Cruzando remuneração média com participação negra por grupo ocupacional, o padrão se repete célula a célula: quanto maior o salário médio de uma ocupação, menor a presença de trabalhadores negros nela. Diretores e gerentes, o grupo mais bem pago, têm a menor participação negra da tabela; trabalhadores agrícolas e de serviços, os grupos mais mal pagos, têm a maior.

Salário médio e participação negra por grupo ocupacional
Grupo ocupacionalSalário médio (SM)% negra
Diretores e gerentes12,525%
Profissões intelectuais8,230%
Técnicos5,140%
Trabalhadores de serviços2,855%
Trabalhadores agrícolas1,950%

Quanto maior o salário da ocupação, menor a presença negra — uma segregação ocupacional estrutural, não um efeito estatístico isolado.

Desigualdade de gênero no mercado formal

Mulheres são minoria entre os vínculos formais, ganham em média bem menos que os homens e ocupam uma fatia desproporcionalmente pequena das gerências. A combinação de menor participação, menor salário e menor acesso a cargos de comando compõe um teto de vidro que atravessa o mercado de trabalho formal brasileiro de ponta a ponta.

Indicadores de gênero no mercado formal
IndicadorHomensMulheres
Vínculos formais55%45%
Salário médio (SM)3,22,5
No topo (>20 SM)62%38%
Gerências65%35%

Homens ganham 28% mais do que mulheres no mercado formal e ocupam 65% das gerências — o teto de vidro aparece em cada corte dos dados.

Cruzamentos poderosos

Hipóteses explicativas

A disparidade entre banqueiros e professores pode ser explicada pela hipótese da captura: o setor financeiro tem poder de influenciar políticas públicas e práticas de mercado de forma a manter seus salários elevados. A teoria da escolha ocupacional explica por que estudantes com boas opções migram para as finanças — os prêmios salariais ali são simplesmente maiores. A conexão com gênero mostra que setores de cuidado, como o magistério, são sistematicamente desvalorizados, muitas vezes por serem historicamente ocupados por mulheres. E a segregação ocupacional racial se perpetua, em boa parte, por redes de contatos majoritariamente masculinas e brancas que recrutam seus próprios pares para os cargos de maior remuneração.

Implicações para políticas públicas

A regulação de remuneração no setor financeiro pode ajudar a reduzir parte dessas desigualdades estruturais. Programas de valorização docente, já previstos no Plano Nacional de Educação, precisam sair do papel e ser efetivamente cumpridos. O monitoramento cruzado de vínculos na faixa de 99 salários mínimos combinados com idade abaixo de 18 anos pode funcionar como alerta automático de fraude na folha de pagamento. Licença-maternidade estendida e creches públicas de qualidade podem aumentar a participação feminina no mercado formal. E políticas de diversidade em cargos de gerência precisam deixar de ser voluntárias e passar a ser obrigatórias, com metas claras e prestação de contas.